{"id":156337,"date":"2026-06-26T08:16:00","date_gmt":"2026-06-26T11:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalocapibaribe.com.br\/?p=156337"},"modified":"2026-06-26T08:16:00","modified_gmt":"2026-06-26T11:16:00","slug":"editorial-semana-21-a-26-de-junho-de-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalocapibaribe.com.br\/?p=156337","title":{"rendered":"Editorial  Semana 21 a 26 de junho de 2026"},"content":{"rendered":"\n<div>\n<p>H\u00e1 semanas que passam pela hist\u00f3ria como p\u00e1ginas viradas com indiferen\u00e7a, e h\u00e1 semanas que deixam marcas indel\u00e9veis no tecido da realidade, n\u00e3o apenas pelo peso isolado de cada acontecimento, mas pela converg\u00eancia singular de eventos que, tomados em conjunto, revelam a complexidade vertiginosa do tempo em que vivemos. A semana encerrada nesta sexta-feira, 26 de junho de 2026, pertence inequivocamente \u00e0 segunda categoria. Ao observador atento, o per\u00edodo ofereceu uma sucess\u00e3o de fatos que cobriram, com not\u00e1vel simultaneidade, o espectro inteiro da vida p\u00fablica: a turbul\u00eancia pol\u00edtica interna, o drama econ\u00f4mico, o horror geol\u00f3gico na Am\u00e9rica do Sul, a press\u00e3o diplom\u00e1tica vinda do norte e o espet\u00e1culo multitudin\u00e1rio da Copa do Mundo, que por algumas semanas converte o planeta numa arena de paix\u00f5es e identidades coletivas. \u00c9 sobre essa semana densa, plural e perturbadora que esta edi\u00e7\u00e3o do editorial HostingPress se debru\u00e7a, com o rigor que o leitor merece e a franqueza que os tempos exigem.<\/p>\n<h2>O governo Lula sob press\u00e3o: a sa\u00edda de Jaques Wagner<\/h2>\n<p>Nenhum fato pol\u00edtico interno causou maior repercuss\u00e3o ao longo desta semana do que o an\u00fancio, feito na tarde de quarta-feira, 24, da sa\u00edda do senador Jaques Wagner (PT-BA) da lideran\u00e7a do governo no Senado Federal. A decis\u00e3o, descrita pelo pr\u00f3prio senador como tomada \u201cem comum acordo\u201d com o presidente Lula, ap\u00f3s reuni\u00e3o de mais de duas horas no Pal\u00e1cio da Alvorada, n\u00e3o enganou os analistas mais experientes: Wagner partia sob press\u00e3o, n\u00e3o por livre e espont\u00e2nea vontade. Dias antes, em 18 de junho, o senador havia sido alvo de mandados de busca e apreens\u00e3o cumpridos pela Pol\u00edcia Federal no bojo da 9\u00aa fase da Opera\u00e7\u00e3o Compliance Zero, que investiga um esquema bilion\u00e1rio de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e seus operadores pol\u00edtico-financeiros.<\/p>\n<p>A magnitude do epis\u00f3dio n\u00e3o pode ser subestimada. Jaques Wagner n\u00e3o \u00e9 um parlamentar perif\u00e9rico, \u00e9 um dos pilares hist\u00f3ricos do petismo, ex-governador da Bahia e figura de inequ\u00edvoca lealdade ao presidente Lula. Sua sa\u00edda da lideran\u00e7a governamental no Senado, em pleno ano eleitoral, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e legislativas de outubro de 2026 se aproximam com velocidade crescente, constitui uma sangria pol\u00edtica de consequ\u00eancias ainda imprevis\u00edveis para o governo. A base aliada observa com apreens\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o, com satisfa\u00e7\u00e3o mal disfar\u00e7ada. E o Pal\u00e1cio do Planalto, com a perplexidade discreta de quem precisa gerir crises simult\u00e2neas sem perder o fio da narrativa.<\/p>\n<h2>A Opera\u00e7\u00e3o Disclosure e o rombo das Americanas<\/h2>\n<p>Se o caso Wagner sacudiu o ambiente pol\u00edtico, a deflagra\u00e7\u00e3o da 2\u00aa fase da Opera\u00e7\u00e3o Disclosure, na quinta-feira, 25, sacudiu o ambiente empresarial e jur\u00eddico com for\u00e7a equivalente. A Pol\u00edcia Federal, em conjunto com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios, cumpriu mandados de busca e apreens\u00e3o e de pris\u00e3o preventiva no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo, no \u00e2mbito da investiga\u00e7\u00e3o sobre o colossal rombo cont\u00e1bil das Lojas Americanas, que os laudos periciais mais recentes estimam em impressionantes R$ 54 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a Federal determinou ainda o sequestro de bens e valores de montante equivalente em nome dos investigados. O caso das Americanas \u00e9, sob qualquer perspectiva, um dos maiores esc\u00e2ndalos cont\u00e1beis da hist\u00f3ria corporativa brasileira. Ele levanta quest\u00f5es que v\u00e3o muito al\u00e9m do direito penal econ\u00f4mico: interroga a efic\u00e1cia dos mecanismos de governan\u00e7a corporativa, a independ\u00eancia das auditorias externas, a permeabilidade dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil sistem\u00e1tica e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a confian\u00e7a que investidores (nacionais e estrangeiros) depositam nas institui\u00e7\u00f5es do mercado de capitais brasileiro. A esperan\u00e7a \u00e9 que a segunda fase da opera\u00e7\u00e3o produza responsabiliza\u00e7\u00f5es concretas, e n\u00e3o apenas o ritual da investiga\u00e7\u00e3o que se perpetua sem desfecho.<\/p>\n<h2>Economia: sinais contradit\u00f3rios num ano eleitoral<\/h2>\n<p>No campo econ\u00f4mico, a semana trouxe dados que exigem leitura cuidadosa, pois apresentam faces distintas e, em certa medida, contradit\u00f3rias. O Banco Central divulgou, na quinta-feira, seu Relat\u00f3rio de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria, elevando a proje\u00e7\u00e3o de crescimento do PIB para 2026 de 1,6% para 2%, em raz\u00e3o do desempenho surpreendentemente positivo do primeiro trimestre, que registrou expans\u00e3o de 1,1% frente ao trimestre anterior, com avan\u00e7os simult\u00e2neos nos setores agropecu\u00e1rio, industrial e de servi\u00e7os. A pesquisa Datafolha divulgada na segunda-feira, 22, corroborou o dado: o percentual de brasileiros pessimistas com a economia caiu de 35% para 26%, enquanto os otimistas subiram de 30% para 36%.<\/p>\n<p>Entretanto, o mesmo relat\u00f3rio do Banco Central que celebra o crescimento eleva a probabilidade de a infla\u00e7\u00e3o estourar o teto da meta (fixada em 4,5%) ao longo de 2026 de 30% para 79%. Trata-se de uma combina\u00e7\u00e3o explosiva: crescimento acelerado em ano eleitoral, com risco inflacion\u00e1rio elevado, em um contexto em que a pol\u00edtica monet\u00e1ria j\u00e1 opera em campo restritivo. O dilema que se apresenta ao Banco Central \u00e9 cl\u00e1ssico, mas n\u00e3o por isso menos angustiante: apertar os juros para conter a infla\u00e7\u00e3o implica desacelerar a economia; manter o ritmo de crescimento implica correr o risco de que a infla\u00e7\u00e3o corroa os ganhos reais das fam\u00edlias, precisamente as fam\u00edlias que o governo mais frequentemente invoca em seu discurso.<\/p>\n<h2>A trag\u00e9dia geol\u00f3gica: os terremotos na Venezuela<\/h2>\n<p>A mais dram\u00e1tica das not\u00edcias da semana, em termos humanit\u00e1rios, chegou do pa\u00eds vizinho. Na noite de quarta-feira, 24, a Venezuela foi sacudida por uma sequ\u00eancia devastadora de terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter, com epicentros na regi\u00e3o de Carabobo, no norte do pa\u00eds, seguidos de mais de vinte r\u00e9plicas ao longo das horas subsequentes. Os balan\u00e7os preliminares apontam ao menos 164 mortos e mais de 970 feridos, n\u00fameros que tendem a crescer \u00e0 medida que as equipes de resgate avan\u00e7am pelas \u00e1reas mais atingidas \u2014 entre elas Caracas, Trujillo, Yaracuy, Aragua e Miranda.<\/p>\n<p>Os tremores foram sentidos para al\u00e9m das fronteiras venezuelanas: moradores do norte do Brasil, nas cidades de Manaus, Bel\u00e9m, Boa Vista e Macap\u00e1, relataram tremores percept\u00edveis, e pr\u00e9dios foram evacuados por precau\u00e7\u00e3o. O Papa Francisco enviou solidariedade e recursos \u00e0s v\u00edtimas, e a ONU mobilizou ag\u00eancias humanit\u00e1rias para apoiar o governo venezuelano na resposta \u00e0 cat\u00e1strofe. O epis\u00f3dio, al\u00e9m de seu peso tr\u00e1gico imediato, coloca em relevo a fragilidade das estruturas de prote\u00e7\u00e3o civil em pa\u00edses que vivem sob severas restri\u00e7\u00f5es institucionais e econ\u00f4micas, como \u00e9, em medida expressiva, a Venezuela de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n<h2>O cen\u00e1rio internacional: tarifas americanas e elei\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica do Sul<\/h2>\n<p>No plano internacional, a semana registrou a continuidade da escalada de tens\u00f5es entre o governo Trump e seus parceiros comerciais no hemisf\u00e9rio sul. O Itamaraty divulgou nota afirmando que as novas tarifas propostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros constituem \u201ctentativa de interfer\u00eancia externa\u201d, em linguagem que sinalizou o recrudescimento das diverg\u00eancias entre Bras\u00edlia e Washington, com reuni\u00e3o entre representantes dos dois governos prevista para os pr\u00f3ximos dias. O presidente Trump, por seu turno, esteve pessoalmente no Congresso americano para pressionar pela aprova\u00e7\u00e3o de reformas eleitorais, em confronto aberto com parlamentares de seu pr\u00f3prio partido, revelando fissuras internas na coaliz\u00e3o republicana que podem ter reflexos geopol\u00edticos imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia e no Peru, elei\u00e7\u00f5es presidenciais chegaram a desfechos turbulentos: na Col\u00f4mbia, o candidato de esquerda Ivan Cepeda reconheceu derrota para Abelardo de Esprielha; no Peru, Roberto Sanchez anunciou n\u00e3o reconhecer a vit\u00f3ria de Keiko Fujimori, cujo avan\u00e7o irrevers\u00edvel na apura\u00e7\u00e3o consolidava um resultado que promete intensificar as disputas pol\u00edticas naquele pa\u00eds. A Am\u00e9rica do Sul, nesta semana, viveu, portanto, uma miscel\u00e2nea incomum de trag\u00e9dia geol\u00f3gica, disputa eleitoral e turbul\u00eancia diplom\u00e1tica \u2014 todos ao mesmo tempo.<\/p>\n<h2>A Copa do Mundo: Brasil avan\u00e7a<\/h2>\n<p>Seria imposs\u00edvel encerrar este editorial sem mencionar o evento que, para bem ou para mal, sequestrou a aten\u00e7\u00e3o de dezenas de milh\u00f5es de brasileiros ao longo da semana: a Copa do Mundo de 2026. O Brasil encerrou a primeira fase da competi\u00e7\u00e3o com vit\u00f3ria sobre a Esc\u00f3cia, por 3 a 0, avan\u00e7ando como l\u00edder do Grupo C. O pr\u00f3ximo advers\u00e1rio (Jap\u00e3o) j\u00e1 est\u00e1 definido. O torneio, como de costume, funciona como term\u00f4metro emocional do pa\u00eds: num momento de press\u00e3o pol\u00edtica, investiga\u00e7\u00f5es em curso e incertezas econ\u00f4micas, a sele\u00e7\u00e3o oferece ao imagin\u00e1rio nacional a possibilidade redentora da vit\u00f3ria coletiva, o anest\u00e9sico espetacular que, como Guy Debord observaria, suspende momentaneamente a percep\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n<p>Esta HostingPress registra os fatos, analisa os contextos e devolve ao leitor o instrumento mais necess\u00e1rio em tempos de complexidade crescente: a clareza informada. A semana que passou foi intensa. A que vir\u00e1, provavelmente, n\u00e3o ser\u00e1 menos.<\/p>\n<p>Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe<br \/>HostingPRESS \u2013 Ag\u00eancia de Not\u00edcias de S\u00e3o Paulo. Conte\u00fado distribu\u00eddo por nossa Central de Jornalismo. Reprodu\u00e7\u00e3o autorizada mediante cr\u00e9dito da fonte.<\/p>\n<p><em>.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 semanas que passam pela hist\u00f3ria como p\u00e1ginas viradas com indiferen\u00e7a, e h\u00e1 semanas que deixam marcas indel\u00e9veis no tecido da realidade, n\u00e3o apenas pelo peso isolado de cada acontecimento, mas pela converg\u00eancia singular de eventos que, tomados em conjunto, revelam a complexidade vertiginosa do tempo em que vivemos. 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